terça-feira, 10 de agosto de 2010

Os arquipélagos da Madeira e dos Açores

O oceano Atlãntico é atravessado, de norte a sul, por uma vasta cordilheira que se encontra submersa. Muitos dos seus cumes são vulcões e alguns atingiram a superfície das águas, dando origem a diversas ilhas de dimensões variáveis. Assim se formaram alguns arquipélagos - conjuntos de ilhas relativamente próximas - como o da Madeira, a sudoeste de Portugal Continental, e o dos Açores, a oeste.
Os dois arquipélagos constituem a parte insular do terroitório nacional - Portugal Insular.

Como é constituído o arquipélago da Madeira?


O arquipélago da Madeira é constituído por uma ilha de maior dimensão - a Madeira -, por outra menor - o Porto Santo - e por mais dois conjuntos de pequenas ilhas desabitadas - as Desertas e as Selvagens.

Como é constituído o arquipélago dos Açores?

O arquipélago dos Açores é constituído por nove ilhas, distribuídas por três conjuntos de ilhas mais próximas:


- O Grupo Ocidental - as ilhas do Corvo e das Flores.

- O Grupo Central - ilhas da Terceira, da Graciosa, de São Jorge, do Pico e do Faial.

- O Grupo Oriental - ilhas de São Miguel e de Santa Maria e ainda um conjunto de ilhotas - as Formigas.

A crise económica do século XIV

Na segunda metade do século XIV, Portugal viveu tempos difíceis:
  • más condições climatéricas,
  • guerras com Castela,
  • fomes e doenças, especialmente a Peste Negra.
A Peste Negra foi uma grande epidemia que alastrou por toda a Europa; em Portugal matou cerca de um terço da população (500 000 pessoas).

A morte de D. Fernando e o problema da sucessão ao trono

Quando D. Fernando morre, sua filha, D. Beatriz, estava casada com o rei de Castela. O acordo de casamento (acordo de Salvaterra), para garantir a independência de Portugal, previa que, até o filho de D. Beatriz ter catorze anos, seria regente D. Leonor Teles.
D. Leonor manda aclamar D. Beatriz como rainha e tem como conselheiro um fidalgo galego: o Conde Andeiro.
Esta situação, aliada às dificuldades económicas, vai dividir a sociedade portuguesa: de um lado, a maioria da nobreza e do clero aceitam D. Beatriz como herdeira legítima; do outro, o povo e, sobretudo, a burguesia, não a aceitam e revoltam-se, receando a perda da independência do reino.

A morte do Conde Andeiro

A burguesia, chefiada por Álvaro Pais, e tendo do seu lado o povo de Lisboa, prepara então uma conspiração para matar o Conde Andeiro e escolhe D. João, Mestre de Avis, para executar essa tarefa.
O Mestre de Avis tinha fácil acesso ao Paço da Rainha uma vez que era filho (ilegítimo) do rei D. Pedro.


     "O pajem do mestre de Avis começou a ir a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo em altas vozes:
     - Matam o mestre! Matam o mestre nos paços da Rainha. Acorrei ao mestre que o matam.
     As gentes, que isto ouviram, saíram à rua a ver que cousa era (...) e começavam de tomar armas, cada um como melhor podia. (...).
     Unidos num só desejo foram às portas do paço (...).
     De cima não faltava quem dissesse que o mestre era vivo e o conde Andeiro morto. Mas isto não queria nenhum crer, dizendo:
     - Pois se é vivo, mostrai-no-lo e vê-lo-emos!
     Ali se mostrou o mestre a uma grande janela que vinha sobre a rua...
     - Amigos, pacificai-vos! Cá eu estou vivo e são, graças a Deus!

Fernão Lopes, Crónica de D. João I (adaptado)

O Mestre de Avis é eleito Regedor e Defensor do Reino

Perante o clima de revolta que se vive, D. Leonor foge para Santarém e pede ajuda ao rei de Castela.
Receando a invasão castelhana, o povo de Lisboa escolhe o Mestre de Avis como Regedor e Defensor do Reino. A burguesia também o apoia, sobretudo com dinheiro para preparar o exército.

A Batalha dos Atoleiros

O rei de Castela invade então Portugal. A chefiar o exército português está D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável. Os portugueses vencem a Batalha dos Atoleiros, no Alentejo, utilizando a táctica do quadrado

O cerco de Lisboa

O rei de Castela cerca Lisboa e quase vence, mas tem de levantar o cerco devido a uma epidemia de peste.

As Cortes de Coimbra de 1385

Entretanto, e dada a gravidade da situação, reúnem-se Cortes em Coimbra, onde o jurista João das Regras prova que, de todos os candidatos, o Mestre de Avis é quem tem direito a ser rei de Portugal.

A Batalha de Aljubarrota

O rei de Castela, sabendo da aclamação de D. João como rei, invade de novo Portugal, travando-se então a Batalha de Aljubarrota (14 de Agosto de 1385), tendo vencido os portugueses, apesar de serem em menor número.

Para comemorar esta vitória, D. João I mandou construir o mosteiro da Batalha.

A consolidação da independência

Tudo o que se passou entre 1383 e 1385 provocou profundas alterações na sociedade portuguesa.
Parte da nobreza que apoiara D. Beatriz fugiu para Castela, perdendo bens e privilégios.
Os que apoiaram o Mestre de Avis foram recompensados com terras e títulos de nobreza e a burguesia passou a ter como tanto queria, mais influência na política do país.
Como disse Fernão Lopes: surgiu "outro mundo e nova geração de gentes".
D. João I, que dá início à segunda dinastia - a Dinastia de Avis - fez um tratado de amizade com Inglaterra (o mais antigo tratado da Europa) e casa com D. Filipa de Lencastre (da família real inglesa).

Em 1411 é finalmente assinado um tratado de paz com Castela.
Resolvida a crise política, faltava agora resolver a crise económica.
Portugal, com esta "nova geração de gentes", vai iniciar a grande aventura dos Descobrimentos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dr. João das Regras

João de Aregas, seu verdadeiro nome, foi um importante jurisconsulto. Doutorado em Direito pela Universidade de Bolonha, foi professor na Universidade de Lisboa.
Teve um papel de grande relevo nas Cortes de Coimbra de 1385, argumentando que o trono estava vago, porque nenhum pretendente era considerado herdeiro legítimo. Assim, deveria caber ao povo a escolha de um novo rei, enumerando as qualidades que deveria ter, as quais, segundo ele provou, existiam no Mestre de Avis.
D. João I nomeou-o chanceler-mor do Reino e seu conselheiro, encarregando-o de ordenar e reformar as leis.
Foi sepultado no Convento de S. Domingos de Benfica, em Lisboa.

D. Nuno Álvares Pereira

Nasceu em 1360. Passou a sua juventude a treinar-se como cavaleiro. Foi o braço direito de D. João I, na revolução de 1383-85, provocando pesadas derrotas aos exércitos castelhanos. Foi Condestável do Reino (chefe supremo dos exércitos), graças ao seu talento de guerreiro e líder militar que todos ouviam, respeitavam e gostavam de seguir.
Para além de excelente estratega foi um hábil guerreiro, como aconteceu na tomada do castelo de Monsaraz.
Era muito religioso e com profundo sentimento de amor à Pátria, que defendeu com toda a heroicidade. Já velho e cansado, entrou para a ordem dos Carmelitas, onde veio a morrer em 1431. Diz a lenda que, por debaixo do hábito de frade, muitas vezes, trazia vestido o arnês de combatente.

D. Beatriz

D. Beatriz era filha de D. Fernando e de D. Leonor Teles. Nasceu em Fevereiro de 1373 e antes de completar 10 anos já tinha sido prometida em casamento pelo menos umas quatro vezes.
Ainda com 3 anos é combinado o seu casamento com Fradique, filho bastardo de Henrique II de Castela. Porém, em 1380, o seu prometido passa a ser o próprio herdeiro da coroa castelhana, D. Henrique, filho de D. João I. Pela mesma altura, às escondidas dos castelhanos, combinava o rei português o casamento de D. Beatriz com Duarte, filho do conde de Cambridge. Era a forma de celebrar um tratado de aliança com a Inglaterra. Mas tão depressa o acordo se fez como se desfez, pois, sem os ingleses saberem, o rei português assina a paz com Castela (Agosto de 1382) e a infanta passa a ser noiva de D. Fernando, filho segundo do rei castelhano. Mas foi por pouco tempo... Como entretanto o rei castelhano ficara viúvo, D. Beatriz acabou por casar com ele, por contrato celebrado em 2 de Abril de 1383.
E, deste modo, com apenas 11 anos, a filha de D. Fernando tornou-se rainha de Castela.

D. João I

Décimo rei de Portugal, cognominado "O Príncipe de Boa Memória", fundador da segunda dinastia, que dele tomou o nome de Joanina (ou de Avis, por ter sido mestre desta Ordem Militar).
D. João nasceu em Lisboa no ano de 1357 e morreu na mesma cidade, no castelo de Alcáçova, a 14 de Março de 1433.
Era filho bastardo do rei D. Pedro I e de Teresa Lourenço, filha de Lourenço Martins, burguês, cidadão de Lisboa. Foi a este Lourenço Martins que D. Pedro entregou a primeira criação do pequeno bastardo. A seguir, é a D. Nuno Freire de Andrade, mestre da Ordem de Cristo, que D. Pedro confia o pequeno bastardo, para continuar a sua educação, vindo a tornar-se mestre da Ordem de Avis.
Falecido D. Pedro e elevado ao trono D. Fernando, é na corte de seu meio-irmão, que o mestre de Avis, então apenas de 10 a 11 anos, passa a mocidade.
Em 1383, vai ter um papel decisivo na conspiração de alguns nobres (entre os quais o moço Nuno Álvares Pereira e seu tio Rui Pereira, o conde de Barcelos e o popular conselheiro Álvaro Pais, padrasto do jurisconsulto João das Regras) para matar o Conde Andeiro, conselheiro galego de D. Leonor Teles, acontecimento que vai desencadear a crise seguinte.
Perante a ameaça de invasão castelhana, é nomeado Regedor e Defensor do Reino e, em 6 de Abril de 1385, é aclamado rei nas Cortes de Coimbra. Tem um papel decisivo na luta contra Castela. Nomeia D. Nuno Álvares Pereira como Condestável (chefe dos exércitos) e pede ajuda ao rei de Inglaterra. Finalmente dá-se a derrota dos Castelhanos em Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385.
A 9 de Maio de 1386 é assinado um tratado entre D. João I e o rei de lnglaterra; e a 2 de Novembro de 1387, D. João I casa com a filha mais velha do Duque de Lencastre, D. Filipa de 28 anos. Deste casamento nascem: D. Branca (n. em 1388, m. com 8 meses apenas); D. Afonso, de breve vida também (1390-1400); D. Duarte, o sucessor (1391); D. Pedro (1392), D. Henrique (1394), D. Isabel (1397), D. João (1400), D. Fernando (1402).
Uma vez desembaraçado de preocupações graves quanto a Castela (a paz é assinada em 1411), D. João aplica-se a consolidar e desenvolver a situação da nova era que na História Portuguesa se iniciara com a sua dinastia. É assim que vai surgir a empresa da tomada de Ceuta, em 1415, seguida dos Descobrimentos portugueses por mar.

D. Leonor Teles

Era filha de Martim Afonso Teles de Meneses e de D. Aldonça de Vasconcelos. Casou com o fidalgo João Lourenço da CUnha, de quem veio a separar-se para poder casar com o rei D. Fernando. Contra este casamento levantou-se grande parte da população portuguesa, tendo havido vários tumultos em muitas cidades e vilas do reino.
Com a morte de D. Fernando, teve início uma grave crise dinástica, pois sua filha, D. Beatriz, estava casada com o rei de Castela.
Após o assassínio do conde João Fernandes de Andeiro, seu amigo e confidente, D. Leonor Teles pediu ao genro para invadir Portugal, convencida de que manteria o cargo de regente. Entretanto, chegou mesmo a rejeitar a proposta de casamento que lhe dirigia o Mestre de Avis.
Quando percebeu que D. João de Castela estava disposto a assumir ele próprio o poder, tentou ainda o apoio dos alcaides seus simpatizantes. Mas era tarde demais. Foi enviada para o Mosteiro de Tordesilhas onde acabou por falecer.

D. Fernando

Nasceu a 31 de Outubro de 1345 em Coimbra.
Era filho de D. Pedro I e D. Constança.
Foi aclamado rei em 1367.
O seu reinado foi marcado por muitos conflitos. Um dos mais graves foi o casamento do rei com D. Leonor Teles de quem teve uma filha, D. Beatriz . Esta união não era do agrado da maior parte dos portugueses, mas a cerimónia acabou por realizar-se, mais ou menos em segredo, em Leça do Bailio (arredores do Porte).
Um outro conflito foi a guerra com Castela, já que D. Fernando tentou por várias vezes obter o trono castelhano. Chegou a ser reconhecido como rei em algumas terras importantes - Tui, Zamora, Cidade Rodrigo - mas acabou por ser derrotado. Para selar a paz entre os dois reinos, foi celebrado o Tratado de Salvaterra, a 2 de Abril de 1383, através do qual se combinou o casamento entre a herdeira do trono, D. Beatriz e D. João I, rei de Castela. Esta união viria a estar na origem de um dos períodos mais difíceis da história portuguesa: a crise política de 1383-85.
Apesar de todos estes problemas, o rei D. Fernando teve oportunidade de tomar medidas importantes para o reino: mandou reparar castelos, construir outros e cercar de novas muralhas as cidades de Lisboa e Porto; para desenvolver a agricultura, publicou a Lei das Sesmarias, procurando aumentar o número de terras aráveis e o numero de trabalhadores agrícolas; desenvolveu a construção naval e o comércio com outros países.
Morreu em 22 de Outubro de 1383.